terça-feira, 20 de outubro de 2009

Cocó Turbinada

Boa coisa não sairia se, aos cinco anos, eu tivesse que imaginar uma invenção para melhorar o mundo no futuro.

Se fosse aos 11 eu já estaria imbuída da ecochatice típica pré-Rio 92 e responderia algo na linha "uma máquina para limpar todos os rios".

Mas, aos cinco, meu mundo girava em torno de uma boneca cujo cabelo cescia após ser cortado. Acho que teria desejado uma máquina que fizesse meu cabelo crescer rápido daquele jeito. E de preferência loiro como a peruca de lã da minha boneca.

Preocupado com os animais, mas com uma graça que nenhum ecochato consegue ter, Vinicius decidiu, aos cinco: quando for adulto, quer que chegue ao mercado a Cocó Turbinada, uma galinha que já vem com cinco corações. Motivo: fã de coraçãozinho, pensa em poupar as aves abatidas em dia de churrasco. A invenção, ilustrada pelo ex-colega de Zero Hora Edu, foi uma das vencedoras de uma promoção do jornal no dia das crianças.

E desde então tenho a Cocó Turbinada em mente. Não por ser uma grande fã de coração de galinha ou tão preocupada assim com a matança de aves. Mas a lógica do Vinícius me comoveu. Tendo um mundo de possibilidades para imaginar, ele escolheu o que lhe traria um prazer tão frugal - e sem culpa.

Não quero soar pessimista, Vinícius, mas do jeito que as coisas vão o consumo de coraçãozinho de galinha pode estar banido antes de você chegar aos 30. Do jeito que as coisas vão, em 2035 comer um bom churrasco só será permitido em ambientes abertos. E apreciadores da gordurinha da picanha receberão olhares de reprovação hoje reservados aos fumantes.

Mas nem por isso a Cocó Turbinada pode deixar de ter serventia. Se o protótipo funcionar, alguém bem esperto logo vai desenvolver a versão humana. E seria assim: a gente teria cinco corações. E quando um fosse quebrado, entraria outro no lugar. A gente ia poder se apaixonar sem medo de o dia de trocar de coração chegar. E se quebrasse, não ia precisar esperar sarar. A gente não teria insônia, e talvez nem saudade. A gente nunca descobriria até quando nosso coração é capaz de ir.

Pensando bem, Vinícius, talvez a máquina de fazer crescer cabelo seja uma ideia melhor.

5 comentários:

maria paula letti disse...

Tudo bem que eu ando lendo só porcaria... mas, puxa, fazia tempo que eu não lia algo tão bem escrito. E forte. Beijo!

Anônimo disse...

O coração e o armário.
Badulaques:De etmologia árabe.
Os aplaques do Badul.
O que seria de nós ( e dos psicólogos),vidas sem nossos badulaques. Hein?
Diziam os antigos, (com mais de 66 anos ), que o bom filho e seus badulaques, ao lar paterno retornam.
Já falei
Há sempre um coração e um armário no lar pa e ma terno, para rec
eber uns e seus outros.
Seu Solon

Joelma disse...

Eu ia comentar o post, dizer uma bobagem qualquer, como é bem do meu feitio. Mas aí entro aqui e me deparo com a declaração-crônica-poética do Seu Solon e não consigo mais é nada. Só lacrimejar. Uimf.

gaitha disse...

taqueopariu.
daí que caiu uma lágriminha agora.

Luísa Alves disse...

E eu sonhando com uma Lu Patinadora. Uma Luísa com 5 corações caíria bem melhor!